30/03/2005 Terror em meio a guerra

Por Marcelo Augusto Galvão

Londres, 1942. A cidade encontra-se devastada pelas bombas alemãs, mas seus habitantes tem algo mais a temer: um assassino que ataca mulheres na escuridão do blecaute forçado. Os tablóides logo o apelidam de “O Estripador do Blecaute”. Resta ao renomado patologista Bernard Spilsbury tentar solucionar o caso. Para sua sorte, ele conta com a ajuda de Agatha Christie, a famosa escritora policial. Esta é a trama de The London Blitz Murders (Berkley), livro escrito por Max Allan Collins, no qual a Dama do Crime é a personagem principal de uma história policial que é ainda mais surpreendente pelo fato de que o famigerado Estripador do Blecaute realmente existiu.

Usando como pretexto os crimes macabros, Collins, um prolífico autor policial cujo trabalho é desconhecido no Brasil (com exceção dos quadrinhos Ms. Tree e Estrada para a Perdição - base do filme estrelado por Tom Hanks e Paul Newman), coloca Christie na trama para auxiliar Spilsbury - um dos pais da medicina forense - a Scotland Yard na solução do caso. Collins mistura personagens reais e imaginários com perfeição, assim como fatos, deixando o leitor sem saber o que é verdade e o que é invenção (felizmente, ele faz questão de separar uma da outra em um apêndice). Com ajuda de uma pesquisa intensa, o autor recria o cotidiano de Christie e dos habitantes de Londres naqueles dias terríveis.

É interessante notar que o motivo para que Christie investigue mortes tão violentas é sua curiosidade em conhecer como funciona o mundo do “crime real” e, assim, se atualizar sobre a ficção hard-boiled popular no outro lado do Atlântico, com os trabalhos de autores como Raymond Chandler. Além disso, ela se preocupa se suas histórias ainda têm alguma razão para existirem em um mundo tão violento como naquele em que vive.

Com uma trama por si só tão atraente e um escritor talentoso, seria difícil acreditar que algo saísse errado. Infelizmente, a história derrapa justamente na parte final do livro. A descoberta por Christie da identidade do assassino é simplista, para não dizer constrangedora. Como se isto não bastasse, o criminoso está longe de ser um personagem interessante; o problema aí reside no fato de Collins criar expectativas altas, para gerar ao final um personagem tão bidimensional.

The London Blitz Murders não deixa de ser uma história curiosa, apresentando uma faceta desconhecida da Dama do Crime. Para os apreciadores deste tipo de história – escritor policial investigando crimes em cenários históricos -, é bom saber que Collins lança neste ano um livro no qual Walter Gibson, o criador do personagem pulp Sombra, ajuda Orson Welles a solucionar um crime durante a clássica transmissão radiofônica de A Guerra dos Mundos.

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