27/11/2003 Despedida em sangue

Por Marcelo Augusto Galvão

Em 1947, o corpo mutilado de Elizabeth Short é encontrado em um terreno baldio em Los Angeles.

Em 1958, Geneva Ellroy é estrangulada e seu corpo jogado numa rua deserta de um subúrbio de Los Angeles.

Os crimes nunca foram solucionados. A única ligação entre eles é um homem: James Ellroy, filho da segunda vítima e responsável por Dália Negra (1987), um romance noir que tem como base a brutal morte de Elizabeth Short.

Nascido em 1948, Ellroy segue os passos de Dashiell Hammett, Raymond Chandler e Ross Macdonald, a tríade sagrada da ficção hard-boiled. Mas Ellroy tem uma característica a mais que o diferencia dos mestres: a obsessão pelo assassinato da sua mãe, quando ele tinha 9 anos, uma tragédia que marcaria o resto da sua vida. Criado pelo pai, ele começou a envolver-se com pequenos crimes e, na adolescência, com drogas e bebida. No começo dos anos 80, depois de quase morrer devido ao abuso do vício, ele decidiu que o melhor seria escrever livros policiais.

Foi com Dália Negra que Ellroy chamaria a atenção do grande público. O livro inaugura o chamado “Quarteto de L.A.”, uma tetralogia que segue com o Grande Deserto (1988), Los Angeles - Cidade Proibida (1990) e Jazz Branco (1992), retratando uma Los Angeles atolada em corrupção e cheia de policiais brutais e criminosos pervertidos, sendo às vezes difícil dizer quem é mais psicótico.

Elizabeth Short era uma bela garota de 22 anos que tentava a carreira de atriz em Hollywood, sem sucesso. Na fria manhã de 15 de janeiro de 1947, seu corpo nu, torturado e dividido na altura da cintura foi encontrado. O caso logo transformou-se em um circo para a mídia. Dália Negra - seu apelido devido ao fato de usar vestidos negros que combinavam com seu lustroso cabelo da mesma cor - era conhecida por levar uma vida promíscua.

A partir daí, Ellroy começa a construir sua própria versão dos fatos, tentando expiar sua obsessão pela mãe ao transferi-la para os personagens principais do livro, os policiais Lee “Buzz” Blanchard e Dwight “Bucky” Bleichert, designados para solucionar o crime que abalou a cidade. Os dois, que dividem um amor platônico por uma mesma mulher, envolvem-se cada vez mais com o caso; a fixação em descobrirem o assassino faz com que suas vidas sejam destroçadas aos poucos, sem perceberem.

A trama, narrada por Bleichert, é bem amarrada e envolvente, com Ellroy descrevendo de forma cruel a Los Angeles dos anos 40 que ele nunca conheceu, com seus guetos de negros e mexicanos, suas gírias, bares frequentados por lésbicas, mansões habitadas por excêntricos milionários e o método de investigação da polícia, além da participação de personagens reais do submundo. As convenções do gênero noir também estão presentes, com chantagens, aparências que enganam e, como não poderia faltar, a femme fatale.

A versão de Ellroy para a solução do crime é satisfatória e bem planejada, sem deixar nenhuma ponta solta da trama. Mas é mais do que isso: é uma despedida de sangue à mãe, como ele mesmo escreve na dedicatória do livro, e também uma forma de compensação por nunca esclarecerem a morte daquelas duas mulheres.

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