09/10/2004 Estragando o prazer de ler

Por Marcelo Augusto Galvão

Killjoy é a palavra em inglês para “desmancha-prazeres” - uma pessoa que estraga a diversão de outras - e também o título original de Prazer de Matar, livro da escritora Julie Garwood lançado no Brasil pela editora Landscape. Poucas vezes um título - neste caso, o original - combinou tão bem com um livro, tamanha capacidade que a história tem em acabar com o prazer de se ler um livro.

Pela sinopse, a história parece até interessante. Avery, a personagem principal, é uma jovem com uma infância conturbada: abandonada pela mãe insana, foi criada por uma tia e pela avó, até que anos depois a mãe retorna, provocando uma tragédia na família que marca a garota para o resto da vida. Mesmo assim, Avery supera tudo e torna-se uma competente analista de informações do FBI. Mas seu passado volta a assombrá-la quando ela precisa enfrentar um assassino impiedoso.

Garwood abre o livro com prólogo desnecessariamente extenso e chato, onde o leitor conhece a infância de Avery. Depois, com a personagem já adulta, somos apresentados aos personagens, um verdadeiro catálogo de criaturas bidimensionais, no qual se destaca John Paul Renard, o charmoso e misterioso par romântico da heroína. O suplício prossegue com uma trama previsível e cheia de clichês, onde a coragem do leitor é testada a cada página.

Nota-se que a intenção da autora era escrever uma mistura de suspense, romance e humor, usando como alavanca o relacionamento entre Avery e Renard e as situações em que ambos estão envolvidos, algo que a autora Janet Evanovich já fizera com a personagem Stephanie Plum em uma bem sucedida série (no Brasil, só o primeiro livro, intitulado “Caçadora de Recompensas”, foi publicado). As risadas até que surgem durante a leitura, mas de forma involuntária, seja por algumas cenas que ultrapassam o limite da credulidade como pela canastrice de Renard (cujo bordão favorito é “diabos!”) ou pelo comportamento atrapalhado de Avery (dona de “pernas fantásticas”, como a autora faz questão de lembrar a cada cinqüenta páginas).

Como suspense, Prazer de Matar parece um daqueles filmes feitos para TV americana, atolado em clichês e com atores do terceiro escalão de Hollywood (Renard, por exemplo, poderia ser interpretado por Lorenzo Lamas ou o ator do seriado Highlander).

 

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