06/06/2004 Conflito de gerações
Por Marcelo Augusto Galvão
Jonny Double é um detetive particular de terceira categoria que não tem escritório e nem grana, mora num hotel vagabundo e usa um velho revólver Smith & Wesson .38, dos tempos em que era tira nos idos dos anos 60. Double é um cara azarado. Já os leitores brasileiros são sortudos em finalmente conhecê-lo na minissérie encadernada Jonny Double (editora Brainstore), primeira parceria do escritor Brian Azzarello e o desenhista Eduardo Risso, os mesmos artistas da aclamada série 100 Balas.
Originalmente criado por Len Wein - mais famoso por criar os personagens
Monstro do Pântano e Alvo Humano (cuja versão
nova também está nos planos da Brainstore) - Double surgiu
no número 78 da revista Showcase, em 1968. Depois de mais
algumas aparições na década seguinte, o personagem
iria para o limbo, de onde seria resgatado trinta anos depois por Azzarello,
que já admitiu que tem uma preferência por perdedores, pois
estes teriam histórias mais interessantes para contar.
E Double tem uma história e tanta para contar. Vivendo em São
Francisco, ele conhece um grupo de jovens que lhe oferecem uma proposta
irrecusável: ajudá-los em roubar o dinheiro de uma conta
bancária que pertencia ao gângster Al Capone. Ao mesmo tempo,
o detetive é contratado por um homem para ficar de olho na sua
bela filha, chamada Faith, e evitar que ela se meta em problemas.
O leitor não precisa ser Phillip Marlowe ou Sam Spade para perceber
que Double irá se envolver com Faith - que por sua vez faz parte
da gangue - e que dali em diante as coisas ficarão complicadas,
com cadáveres - e outras partes do corpo humano - aparecendo em
todos os cantos da cidade. Mesmo assim, a trama é envolvente, com
o texto de Azzarello, que confronta o idealismo de um detetive dos anos
60 com o cinismo dos jovens do final dos anos 90, e a arte do argentino
Risso, desenhando tanto personagens sensuais quanto decadentes com o mesmo
talento em que conta a história usando ângulos inusitados.
Jonny Double é uma história obrigatória
para todo leitor de história policial que se preze. A edição
brasileira custa R$ 34 e pode ser encontrada nas lojas especializadas
em quadrinhos.