21/12/2003 O preço da proteção

Por Marcelo Augusto Galvão

Só agora chega o leitor brasileiro tem a oportunidade de conhecer um dos mais originais protagonistas de histórias policiais, mais de meia década após seu surgimento. À Queima-Roupa (Editora Landscape) traz o guarda-costas Atticus Kodiak em um suspense de tirar o fôlego.


Criado pelo americano Greg Rucka em 1997, Kodiak estreou em Keeper com a missão de proteger uma médica, especialista em abortos, da ira de fanáticos religiosos. Apesar de um assunto espinhoso - para dizer o mínimo - Rucka conseguiu conduzir bem a trama, apresentando um personagem interessante e fora do lugar comum de investigadores particulares ou policiais.


Critical Space - o título original de À Queima-Roupa - é na verdade a quinta aventura de Kodiak, o que em um primeiro momento poderia se traduzir em uma desvantagem para o leitor brasileiro. No entanto, após um prólogo arrebatador, Rucka reapresenta o protagonista e o elenco de coadjuvantes fixos de maneira sutil, enquanto vai desenrolando a trama na qual Kodiak é forçado a enfrentar uma ameaça do passado. Neste caso, ela atende pelo nome de Drama, uma cruel assassina de aluguel que o guarda-costas encontrara no livro anterior, Shooting at Midnight.


Porém, como qualquer leitor de suspense sabe, as coisas nem sempre são o que parecem e logo Kodiak descobre que Drama é agora alvo de outro assassino, um homem para quem a morte não é o suficiente.


Rucka tem um estilo envolvente, baseando-se na quase sempre competente técnica de “mostrar-e-explicar”, ou seja, primeiro ele coloca Kodiak no meio da ação desenfreada, para só então explicar como o personagem se meteu naquela situação. Isto, na maioria das vezes, é garantia de que a atenção do leitor ficará preso ao texto. É este o caso de À Queima-Roupa, onde o leitor acompanha o eletrizante jogo de gato e rato entre Atticus Kodiak e Drama, seja em bairros novaiorquinos dominados pela mafiya russa ou numa ilha caribenha.


Todos os personagens são críveis, começando pelo protagonista e seguindo pelos coadjuvantes, principalmente as femininas, o que aliás é uma característica de Rucka, que também é roteirista de quadrinhos como Whiteout (estrelada pela delegada federal Carrie Stetko), Viúva Negra (a super-espiã russa da Marvel Comics), entre outros. O autor também mostra a vida tensa de um guarda-costas, numa espécie de “bodyguard procedural”.


Ainda assim, Rucka comete alguns deslizes. Drama, pelo menos no início, é uma personagem exagerada, tamanha sua reputação como assassina eficiente; isto acaba se perdendo quando comparado entre os personagens “reais”. Fica parecendo que ela saiu diretamente das páginas da revista da Viúva Negra com quem, aliás, partilha a mesma nacionalidade. E apesar da narrativa empolgante, perde-se um pouco do ritmo quando Rucka relata, em excesso, os rigorosos exercícios físicos que Kodiak precisa enfrentar lá pelo meio do livro.


Mas o maior problema encontra-se na última parte de À Queima-Roupa, quando Atticus Kodiak toma decisões que dificilmente atraem alguma simpatia e identificação por parte do leitor. Neste momento, o livro dá uma “esfriada”, mas a ação e o suspense contínuos conseguem mater o leitor atento.


À Queima-Roupa apresenta um ponto de ruptura na vida do guarda-costas, que é forçado a pagar um preço alto pelas sua ações, devendo renunciar família e amigos. O suspense permanece mesmo após a resolução da trama, pois o leitor pergunta-se como será a vida de Atticus Kodiak daqui para frente.


Fica a sugestão, para quem gostar do livro, de ler a série desde o início, composta por Keeper, Finder (1998), Smoker (1999) e Shooting at Midnight (2000).

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