02/05/2004 A autópsia de Jack
Por Marcelo Augusto Galvão
Jack, o Estripador pode não ter sido o primeiro assassino psicopata da história, mas sem dúvida é o mais famoso. Sua “obra” - a macabra estripação de cinco prostitutas em Londres no ano de 1888 - e o fato de sua identidade nunca ter sido descoberta originaram livros, filmes, documentários e quadrinhos. Retrato de um assassino - Jack, o Estripador: caso encerrado (Companhia das Letras) é mais uma tentativa de cavar neste filão quase sempre lucrativo de crimes verdadeiros, desta vez pela pena da escritora Patricia D. Cornwell.
Autora de uma famosa série de livros policiais apresentando a médica legista Kay Scarpetta (publicados no Brasil também pela Companhia das Letras), Cornwell, uma jornalista policial por profissão, decidiu que era hora de desmascarar o verdadeiro assassino, que durante o último século gerou as mais diversas teorias sobre sua verdadeira identidade, mesmo ela confessando saber pouco sobre os crimes (o que é de se estranhar, tendo em vista a quantidade de material e o fato de que a Dra. Scarpetta enfrenta vários psicopatas no decorrer de seus livros). Gastando 4 milhões de dólares com o uso de tecnologia que na época não existia, Cornwell concluiu que Walter Sickert, um famoso artista da época, era o psicopata. E não só isso: que seus crimes não terminaram com a morte das cinco prostitutas que viviam em Whitechapel, bairro pobre de Londres.
Sickert, afirma Cornwell, era portador desde criança de uma deformidade no órgão sexual que o traumatizaria severamente quando adulto; além disso, sempre demostrou uma personalidade extravagante e deturpada. A análise das centenas de cartas supostamente enviadas por Jack para a polícia, bem como da biografia de Sickert, apenas comprovariam a teoria da escritora que, partilhando com sua personagem mais famosa uma certa obsessão, apresenta com detalhes toda a parte médica-legal da história macabra.
Cornwell, que utiliza a dose certa de suspense para prender o leitor na sua tentativa de convencê-lo que Sickert era o estripador, mostra que a principal causa do crime nunca ser descoberto foi a completa ignorância da Scotland Yard em técnicas de dedução e medicina forense. Desta forma, ela despreza as teorias conspiratórias surgindas nos últimos anos, como a de que o assassino seria o médico da família real (teoria presente, por exemplo, na graphic novel, e posteriormente no filme, Do Inferno) numa tentativa de esconder o casamento do príncipe Albert com uma plebéia. A partir daí, ela explica como o crime poderia ser solucionado hoje em dia (um prato cheio para os fãs de séries policiais como C.S.I. ou reconstituições de crimes verdadeiros, como Os Novos Detetives), enquanto mostra os hábitos da camada mais pobre da população da capital da Inglaterra.
Mas apesar do subtítulo do livro, Retrato de um assassino não encerra o caso de forma conclusiva. Os milhões de dólares gastos por Cornwell não provam definitivamente que Sickert era o estripador. A principal prova - o exame de DNA - não pode ser realizado, pois o artista foi cremado e não deixou descendentes diretos; as cartas enviadas por Jack, por sua vez, não estabelecem ligação com Sickert. O resto da teoria da autora é baseada num amontoado de suposições do tipo “talvez Sickert fosse um pervertido” ou “talvez Sickert estivesse em Londres nos dias dos crimes” etc; como se vê, é muito “talvez” para uma obra que diz encerrar o caso. O mesmo ocorre com a afirmação de Cornwell que os crimes continuaram após o ano de 1888. A única coisa que se pode ter certeza é que Sickert era dono de uma personalidade difícil e extravagante, o que não quer dizer que ele fosse exatamente um psicopata, ainda mais um mutilador.
É preciso reconhecer que Patricia Cornwell fez um ótimo trabalho reconstituindo a vida da Londres do século XIX e seus costumes, mas isto não basta para aqueles que buscavam uma solução definitiva para o crime. A própria autora reconhece, a certa altura, que nem sempre a tecnologia pode solucionar todos os crimes.
Parece
que Jack, o Estripador continuará zombando - exatamente como fazia nas
cartas que mandava para a Scotland Yard - por mais algum tempo do além,
até que alguém resolva novamente desafiá-lo.